Mais segura.

      As aulas passavam depressa, eu conversava com Pedro o tempo todo. Me vi contando a ele sobre meu passado, sobre como era antes.
      O sinal para o recreio tocou, e todos saíram.
      - Quer sair, ou prefere ficar aqui? - Disse Pedro.
      - Bem, acho que eu quero ir ao banheiro.- Disse sorrindo sem graça.
      - Então a água funcionou bem. - Disse rindo.
      Ri também.
      Andamos devagar até o banheiro. Conversando ainda, eu estava contando a ele, sobre a vez que eu e mamãe tínhamos viajado para a França, sem dinheiro algum, tínhamos o dinheiro da passagem, e pronto. Mamãe achava que ia ser uma aventura, que íamos dar um jeito. Mal andamos um quarteirão longe do aeroporto, e voltamos para lá, pegando o próximo voo de volta pro Brasil.
      Fui ao banheiro, quando sai ele ainda estava me esperando. Sorri. Era bom ver que ele realmente estava se preocupando comigo.
      - Não estou te atrapalhando estou? - Perguntei apreensiva.
      - Ah Agatha, claro que não, é um prazer acompanhá-la.
      Sorri.
      - Obrigada.
      - Não precisa agradecer, eu ficaria apenas conversando a toa com uns amigos por ai, mas aqui entre nós, conversar contigo é bem melhor. - Ele sorriu, o sorriso dele realmente já tinha me encantado.
      - Ah, então eu acho que terei que ir contar para os seus amigos que você prefere a mim. - Falei com tom brincalhão.
      -  Pode ir, eu prefiro mesmo.
      - Nossa, assim eu me sinto lisonjeada.-Falei olhando pra ele piscando os olhos rapidamente.
      Ele riu.
      - Você realmente é muito legal. Então, conte-me mais sobre a viagem.
      Então contei.


      Finalmente acabara a aula. Fomos os últimos a sair da sala de aula.
      - E então, quer que eu te leve até em casa?- Falou Pedro.
      - Minha casa fica perto daqui, tudo bem..- Falei.
      - Ok então. Até amanhã Agatha.
      - Até Pedro.
      Antes que eu pudesse me surpreender, ele me deu um beijo no rosto. Minha pele formigou com seu beijo. Ele se afastou rapidamente. Comecei a caminhar devagar, com os dedos no lugar onde ele havia beijado.
      - Oi! - Disse alguém, me surpreendendo.
      Olhei, era o garoto da entrada, o garoto que parecia uma pintura de um Deus grego.
      - Ah, Oi.. Tudo bem? - Falei.
      Realmente parecia que Pedro havia me ajudado bastante, aos poucos eu estava me assemelhando a Agatha do passado.
     - Tudo sim, e com você? - Respondeu.
     - Estou bem, agora que não estou em cima de você né.. - Sorri.
     - Nossa, estar em cima de ruim é assim tão ruim?
     - Não não, eu não quis dizer isso...
     - Tudo bem, eu estou brincando.
     Rimos juntos, nem foi tão engraçado, mas rimos.
     Começava a me perguntar, se eu realmente estava voltando ao normal, se a presença de Pedro tinha feito isso, ou se era pelo fato de que quando eu estava perto de Pedro e desse menino com olhos marcantes eu me sentia mais segura. Estava achando que a segunda opção era a correta.
     - Qual é o seu nome? - Perguntou ele.
     - Agatha.
     - Ah, bonito nome, eu me chamo David.- Sorriu.
     Sorri de volta.
     - Gostaria de me acompanhar até em casa? - Perguntei.
     Tapei a boca quando acabei de falar, não acreditava que tinha sugerido isso.
     - Será um prazer.
     Agora já estava feito, fomos caminhando devagar. Conversando, me vi agindo com ele na mesma naturalidade com que agia com meus colegas do passado, mas não me sentia tão bem como quando eu estava com Pedro. Mas eu sentia que David viria a se tornar um grande amigo.
      - Bom, é aqui que eu moro.
      - Então, está entregue.. - Disse sorrindo.
      - Muito obrigada David.- Sorri.
      - Não há de que.. - Disse enquanto se virava e ia na direção oposta a que tínhamos vindo.
      Entrei em casa, e corri para o meu quarto.
      Aquela manhã havia sido demais pra mim.
   
   
                                   
                                           

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Exceto para um..

     - Ok... - Disse ele recolhendo a mão. - Você está bem?
     Sacudi a cabeça, como se isso fosse colocar meus pensamentos em ordem.
     - Sim, porque?- Disse, tentando parecer normal.
     - Você está meio pálida.. Quer que eu a leve na enfermaria?- Seu rosto mostrava uma expressão apreensiva.
     - Não, eu estou bem. - Respirei fundo, passei a mão pelo rosto.
     - Vou pegar um pouco de água pra você.
     Ele saiu da sala. Em seguida, alguns alunos começaram a entrar e tomar seus lugares, todos me olhavam com surpresa quando me viam. Depois ficavam olhando disfarçadamente e cochichando. Isso estava me deixando muito nervosa e envergonhada, me vi pedindo mentalmente para que Pedro voltasse logo.
     Pedro entrou trazendo uma garrafa de água mineral com ele. Senti um grande alivio, ao menos agora eu não estava mais sozinha recebendo olhares curiosos, espantados e críticos.
     Ele se sentou no lugar vago bem a minha frente, e se virou pra mim, com olhos cuidadosos.
     - Bom, como eu não acho que a água dos bebedouros aqui são muito seguras, principalmente pra alguém que pode estar passando mal, eu comprei uma garrafa.- Ele sorria enquanto falava, seu sorriso realmente era lindo, mas não como o do garoto da entrada.- Beba. - Agora ele estava sério.
     - Eu agradeço mas...
     - Nada de mas, beba Agatha..
     - Tudo bem, mas depois eu te pago o que gastou com a água.. - Disse pegando a garrafa, e levando a boca.
     Só percebi que realmente estava com muita sede quando a água tocou minha boca. Bebi quase metade da água da garrafa.
      - Que sede em..- Disse ele rindo.
      Ri também. Nem acreditava que estava rindo, junto com um estranho.
      - Obrigada. - Entreguei a garrafa a ele.
      - Por nada senhorita.. - Disse ele sorrindo, em seguida levou a garrafa a boca, tomando um gole da água que restara.
      Ele se levantou.
      - Pedro... - Falei depois de muita hesitação.
      - Sim? - Disse ele levantando a sobrancelha, surpreso por eu tê-lo chamado.
      - Você, poderia, sentar-se aqui, perto de mim? - Eu ainda estava hesitante de pedir isso, mas era melhor do que ainda ficar sozinha ali.
      Ele sorriu.
      - Claro.
     Logo correu até onde suas coisas estavam,  e voltou para perto de mim. Todos da sala o olharam, e depois, ficaram nos olhando.
     - Muito obrigada. Eu sou nova aqui obviamente, e tem muita gente me olhando, não estou me sentindo bem com isso, se você ficar aqui, vou me sentir melhor, afinal você é o único que ao invés de ficar me encarando com espanto e falando baixinho sobre mim está agindo normalmente comigo. - Me espantei quando acabei de falar e percebi que estava agindo normal, com uma pessoa que nunca tinha visto, mas que tinha salvado minha vida.
     Ele riu.
     - Sem problemas. Ficarei o tempo todo ao seu lado, até quando não precisar mais de mim.
    Pensei em dizer que não precisava, mas eu precisava sim. Até me adaptar melhor a essa escola, eu precisaria sim de todos que não me achassem uma completa estranha.
                     
                                 

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Surpresas...



   Tomei um banho demorado. Vesti uma regata preta, e por cima uma camiseta xadrez (vermelha e branca), calça jeans e uma sandália preta. Depois que tinha me arrumado, fui até a cozinha, e peguei um pedaço de bolo e um copo de leite. Vovó sorriu ao me ver comendo, sorri de volta, com a boca cheia.
   Antes de sair, beijei o rosto de vovó, e abracei.
   - Prometo que tudo ficar vai ficar bem agora. - Sussurrei em sue ouvido.
   Vovô insistiu em me levar para a escola, tentei recusar, mas no fim acabei aceitando.
   Dei um beijo em seu rosto antes de saltar do carro, ele sorriu, e fiquei olhando seu carro sumir na esquina.
   Me virei, e fui andando para a entrada da escola, olhando para meus sapatos. Bati em alguém, que me fez cair.
   Fui tudo tão rápido, que a primeira coisa que vi depois de cair, foram seus olhos cor de mel.
   - Daqui a pouco vou acabar cobrando pra amortecer suas quedas.. - Disse ele rindo.
   Sua voz era forte, grave, mas ao mesmo tempo doce e maravilhosa, assim como seu rosto, seus olhos.
   - Me desc-culpe, eu não o vi, estava olhando para o chã-ão, e, desculpa..
   - Fique calma.. Não precisa gaguejar porque caiu sobre mim...- Ele sorria. Um sorriso lindo, branco e brilhante.
   - Desculpe...
   Por um momento fiquei paralisada, olhando seus olhos. Parecia hipnotizada por eles. Era estranho, mas era bom. E ele olhava fixamente os meus também.
   - E ai gente, vão ficar o dia todo deitados no chão? Eu sugiro uma cama, bem mais confortável pra esse tipo de coisa... - Disse uma voz feminina em tom de brincadeira, seguida de risos.
    Levantei-me rapidamente. Me sentia tão envergonhada, mas, estendi a mão para o menino dos olhos cor-de-mel. Ele a pegou sorrindo, e se levantou. Bateu a mão em sua calça, limpando a sujeira. Eu continuei o olhando, admirada. De repente, despertei. Comecei a andar, e me virei uma ultima vez.
   - Desculpe-me novamente.
   Tive tempo ao menos de ver um grupo de pessoas ao seu lado, me encarando, mas não reparei a fisionomia de ninguém mais.
   Andei tão depressa que parecia que estava correndo.

   
   Cheguei na sala, não havia ninguém ainda.
   O que tinha acontecido comigo?
   Eu parecia hipnotizada por aquele garoto. E o pior de tudo, nem seu nome eu sabia. Mas ele parecia ser alguém legal. Se alguém ficava caindo em mim, eu não seria tão gentil. Não no passado, agora, eu provavelmente ia apenas correr.
   Mas ele era tão lindo...
   Eu precisava parar de pensar nele. Não podia ficar admirando garotos. Nunca fui de ficar paquerando, namorando, na verdade nem nunca havia namorado e nem nunca tinha tido interesse, mamãe sempre me dizia que homens apenas nos faziam sofrer, então quanto mais eu evitasse um namoro, melhor seria. Então, se antes não havia interesse, agora muito menos. Agora que eu era uma pessoa fria, quase como uma morta andando entre os vivos.
   Um outro aluno chegou, quando me viu, ficou com uma expressão estranha, e logo se sentou do outro lado da sala bem distante de mim.
   - Ei.. - Disse ele.
   Pensei que estivesse falando com alguém em outro lugar, no celular, algo assim, mas quando olhei para ele, ele estava me olhando, esperando uma resposta.
   - Sim..? - Respondi.
   Ele sorriu. Ele também era bonito, sorriso legal, cabelos castanhos curtos, pele branca, corpo nem gordo, nem muito sarado, e um pouco mais alto que eu provavelmente.
   - Você é Agatha Mendes né?
   - Sim..
   - Eu sabia, nunca esqueceria seu lindo rosto, mesmo que naquele dia estivesse todo molhado, e com sua boca roxa.
   Fiquei espantada. Do que esse garoto estava falando?
   - Como? Não estou entendendo.
   - Me desculpe, não deve se lembrar de mim.
   Ele se levantou, e caminhou até minha frente.
   - Eu sou Pedro, filho de Maria Isabel. Fui eu quem te salvei no dia em que se afogou.- Ele estendeu a mão.
   Não sei porque, eu fiquei muito surpresa, abri a boca, e me afastei pra trás. Aquele garoto. Havia salvado minha vida, e foram seus lábios que fizeram isso. Podia parecer que eu estava louca, ou afetada pelo afogamento, mas quando seus lábios haviam tocado os meus, a sensação que senti, foi maravilhosa, inexplicável.
                         
                                       

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Retorno..



   Uma semana depois, era visível que eu estava muito melhor, portanto, chegara a hora de voltar para a escola. Minha avó já havia conversado com os professores, e eles, decidiram passar trabalhos para mim. Provavelmente não seria difícil, com o novo computador que vovó havia me dado, facilmente eu faria meus trabalhos. 
   O melhor desses dias de recuperação, além do descanso, é que eu havia tomado uma decisão. Eu agora levaria mesmo a sério meus estudos, e não faria mais coisas arriscadas. Quando eu estava em coma, vovó ficou muito doente, chegou a ficar em observação em um hospital por uma semana, mas se recuperou. Ninguém queria me contar que eu tinha sido o motivo dessa doença repentina. Mas em um momento, naquele último dia em que meus amigos estavam comigo, Sara se ausentou, e Alexssander acabou me contando, mas eu prometi não dizer a ninguém que sabia disso.
   Além de tudo, mamãe nunca iria gostar que eu tentasse me matar, e eu não suportaria perder minha avó, agora ela e vovô, eram tudo o que eu tinha.
    Mas, não seria nada fácil, voltar para aquela escola, ficar sozinha, e ainda ouvindo pessoas cochicharem sobre mim.. A esquisitinha do 2º D. Não seria tão fácil encarar a realidade novamente.



                                                     

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Recuperando ~~*

   Finalmente eu podia voltar para casa. Cerca de 3 dias se passaram desde que eu tinha acordado. Tinha perdido um mês na escola, mas isso pouco me importava, ao menos meus amigos ainda estavam comigo. Eles iam me visitar todo dia, ficávamos conversando até a enfermeira expulsá-los.
   Todos me ajudavam muito. Ao chegar em casa, vovô se ofereceu a me carregar, Alexssander, e até mesmo Sara, mas no fim, eu andei sozinha, apoiando-me em vovô e Alexs.
   O dia passou rápido. Eu conversei tanto com meus amigos, ri, comi, e isso deixou vovó muito alegre. Mas, eles tinham que ir embora, e dessa vez não voltariam no outro dia para me visitar, conversar e rir comigo.
    - Ah amiga, vou sentir tantas saudades. Mas nó vamos vir várias vezes, e você deve ir nos visitar também... - dizia Sara.
    - É mesmo, sentiremos sua falta minha linda... - Alexssander deu um beijo estalado em minha bochecha.
    - Tudo bem gente, e obrigada por tudo novamente, eu amo vocês ta bem? - Uma lágrima desceu por meu rosto.
    - Não chore...- Disse Sara, retirando a lágrima.
    Abracei-os. E acabamos os três chorando um pouco. Mas enfim, eles se foram.
   Quando ouvi a porta bater, foi como se eu voltasse a minha depressão, mas agora ela estava mais fraca, eu tinha me fortalecido.
   Me levantei da cama e olhei pela janela. Uma figura escura no quintal vizinho, me observava. Fechei a cortina. Um pouco depois, eu a abri, devia ser apenas impressão minha. Mas a figura não estava mais lá.
    Agora além de depressiva, eu estava ficando louca, era tudo o que eu precisava. 

               

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Novamente...

    Uma luz forte, atravessava minhas pálpebras. Estranho... Não sabia que pessoas mortas tinham pálpebras.
    Abri-as devagar, aos poucos fui enxergando uma lâmpada sobre mim. Desviei o olhar para o lado, e vi vovó em uma poltrona enorme, adormecida, somente assim, percebi que definitivamente não estava morta.
    Adormeci novamente.
    Quando finalmente reabri meus olhos, tive a surpresa de encontrar Sara e Alexssander sobre mim, me encarando ansiosos. Quando perceberam que eu abri os olhos, eles sorriram, e me abraçaram forte.
    - Ei, ei! Nada de abraços assim crianças, ela acaba de acordar de um após 30 dias adormecida, precisa de muito repouso!- Disse a enfermeira que estava ali perto.
    Ela chegou perto de mim, e me lançou um olhar de carinho, cuidado, pena.
    - Como se sente querida?- Perguntou ela.
    - Muito bem. Totalmente sem sono.
    Todos em volta riram. Vovó que estava novamente na poltrona, ela se levantou e caminhou devagar até mim.
    - Minha netinha!- Ela beijou meu rosto, e eu senti uma lágrima quente cair em minha bochecha.- Tive tanto medo de te perder, eu não iria suportar, já perdi sua mãe, e agora você. Eu não iria suportar.
    - Acalme-se vovó, eu estou aqui. Viva.
    Realmente, eu estava viva. Estranho novamente.
    - A minha neta, por sorte, quando você estava se afogando, aquele jovem valente, filho da Maria Isabel, te salvou. Ele realmente é um jovem muito valente.- Ela sorria e acariciava minha mão.
    Eu não me lembrava de nada de quando estava me afogando, na verdade, nem me lembrava o que tinha me  feito ir parar ali. Quando vovó disse, tudo o que me lembrei foi de um formigar maravilhoso e intenso em meus lábios.

                                  

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Morte/sonho...

   Sempre imaginei que a morte fosse algo horrível, doloroso e completamente diferente do que qualquer ser humano já tinha visto em vida. Mas não, com toda certeza, dores muito fortes haviam me atacado, a angústia de não conseguir ar. Mas agora, havia tanta paz, e eu parecia viver em um sonho. Era estranho, onde estava o céu? O inferno?
    A morte era serena. Eu andava em um campo limpo, sozinha, e o fato de estar sozinha não me era estranho, nem incômodo. Era apenas sereno, havia paz em qualquer lugar. Apenas a grama, e as flores que estavam a minha volta, me faziam sorrir, e não me sentir sozinha.
   A morte definitivamente era algo bom. Muito melhor do que minha vida sem mamãe. Na verdade a morte se parecia com um sonho. Um sonho maravilhoso.


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    Meu fim... Parecia tão ridículo, morrer daquela forma. Mas eu encontraria mamãe, só mais alguns segundos, com angústia insuportável e a dor, da água que invadia meus pulmões, enquanto eles procuravam ar, e eu estaria com minha mamãe.
Seriamos felizes como sempre, não haveria mais a preocupação de que algum dia nos afastássemos novamente uma da outra.
    Mas, o que eu estava fazendo?! Parecia uma louca psicopata! Mamãe nunca aprovaria um suicídio, e eu sempre fora contra isso. Eu me debati novamente, e tentei voltar a superfície, porém, meus membros não sabiam como fazer aquilo, e estava muito debilitados. Aos poucos eu fui descendo, e descendo. Era o meu fim definitivamente.
   
    
    - Ai meu Deus! Acorda!- Ouvi ao longe alguém sussurrando.
    Meus olhos doíam. Abri eles aos pouquinhos, não consegui enxergar nada, e minha garganta ardia. Eu tossi, e muita água saiu por meus lábios.
    - Isso, isso.. Acorde, respire.. Resista!- O sussurro estava cada vez mais baixo.
    Senti lábios tocarem os meus, mesmo com toda a dor que eu senti, aquilo fez meus lábios formigarem, era bom, a única sensação boa em meio a toda a dor.  Tossi novamente, e mais água saiu. Minha garganta ardia muito, e meu corpo todo doía. Eu respirei fundo, e o ar causou dor desde minha garganta, até meus pulmões.
    - Isso linda, respire, o socorro está a caminho.- Disse a voz, e foi a última coisa que ouvi.

                 

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O fim...

    A aula parecia não ter fim. Talvez eu apenas estivesse imaginando coisas, mas parecia que todos me encaravam o tempo todo, onde quer que eu fosse.
    Durante as aulas, eu me encolhia cada vez mais no canto. Me sentia tão insegura, uma completa estranha e esquisita ali. Em minha antiga escola, eu não era muito popular, porém, tinha bons amigos. Amigos com os quais eu passara momentos maravilhosos, engraçados, "tristes" (Até então, eu não sabia o que realmente era tristeza).
    Há 3 meses atrás, eu não ficaria calada por tanto tempo. Passaria a aula toda conversando com Sara, e com Alexssander, meus melhores amigos. Os meus outros colega de sala, Thiago, Henrique, Jessika, Awslayyne, com os quais eu também conversava bastante, não me faziam tanta falta como Sara e Alexssander. Eu os conhecera no jardim de infância, e por incrível que parece, nunca tínhamos nos separados. Eles amavam mamãe também, e foram eles quem mais me deram apoio desde que ela se fora. Eu ligava para eles todas as noites.
    Rívia tentava a todo custo conversar comigo, mas eu me encolhia sempre que falava algo, que normalmente eram: "Ok, sim, talvez, não.". Esse meu novo modo de ser me surpreendia, eu nunca tivera dificuldade em conversar com ninguém, ou em me entrosar em um grupo. Não era popular em meu antigo colégio, por que realmente não queria, preferia ficar apenas com Sara e Alexssander.
    Quando finalmente a aula acabou, eu sai correndo da sala. Ao passar pelo corredor, bati de frente com alguém, cai no chão, levantei-me depressa, e olhei em volta com muita vergonha. Um menino relativamente belo me encarava, ele ainda estava no chão.
    - Novata?- Perguntou ele levantando sua sobrancelha direita. Seus olhos cor de mel chamavam bastante a atenção em seu rosto pardo.
    - Si-sim.- Gaguejei.- Me desculpe, não era me intenção bater em você.
    Dizendo isso, eu me virei e corri novamente.
    Finalmente cheguei em casa, fui para meu casulo. Aquele quartinho nunca me trouxera tanta segurança. Peguei meu celular e liguei para Sara. Ela atendeu ao primeiro toque.
    - Oi Agatha!- Disseram ela e Alexssander em coro.
    Meus olhos lacrimejaram apenas em ouvir suas vozes.
    - Oi gente.- Eu sorri. Era tão bom poder falar com eles.
    Conversamos por algum tempo. Após desligar, eu ajudei vovó a lavar louça e depois assisti TV durante muito tempo. Após comer algo, eu tomei banho, escovei os dentes, e deitei-me.
    Dormi tranquila. Ao menos não tinha mais pesadelos como nas primeiras semanas em que chegara ali.
    " Amanhã será melhor. Você irá se entrosar com a turma, e perder esse medo repentino das pessoas." Pensei comigo mesma.
    Mas não foi assim. Na realidade, aquilo se tornou algo rotineiro. Três meses se passaram, e eu continuava encolhida no canto durante as aulas, e não me levantava sequer na hora do recreio.
    Com o tempo, Rívia desistiu de conversar comigo, e eu ganhei até um apelido, "esquisitinha do 2º D"
    Eu também passara a falar menos com Sara e Alexssander.

   
   

     Estava voltando para casa, como em qualquer dia rotineiro de minha vida sem sentido, quando o rio que rodeava a cidade chamou minha atenção, e a ideia surgiu em minha mente.
     " Será rápido... Você não sabe nadar mesmo... Apenas alguns minutos, e estará com sua mamãe novamente..." Disse uma voz em minha cabeça.
    Aquela ideia era assustadora, mas irresistível. Quando percebi, já estava na beira do pequeno rio.
    Minha vida não fazia sentido mais, Não tinha amigos, não tinha mãe, não tinha "vida". Além de tudo, eu apenas causava preocupação pra meus avós, eu escutara eles conversando algumas noites atrás.
     " - Querida, estou muito preocupada com Agatha. Os professores dela, têm reclamado de sua falta de atenção, e já a viram chorando diversar vezes durante as aulas.- Disse vovô. Sua voz era grave, e combinava com sua barriga grande, e seu rosto pardo com fortes feições.
       - Ela sofre muito com a morte de Lúcia. Eu também já a vi chorando diversas vezes, ela não tem comido quase nada ultimamente.- Disse vovó.
       - Ela é tão jovem. Tão bonita, e está perdendo a vida por conta disso. Estou com medo de que ela esteja em depressão.
       - Eu também querido."
    Além disso, desde que decedira usar apenas minha roupas pretas, combinado com forte lápis de olho preto, e meu cabelo naturalmente negro, acho que eles pensavam que eu tinha me transformado em algum tipo de gótica. Mas nunca tive a intenção de passar essa imagem, eu apenas criara uma inexplicável simpatia pelo preto.
    Portanto, o fim seria a melhor escolha.
    Joguei minha mochila no mato que estava atrás de mim, e pulei. Era mais fundo do que eu imaginava. No momento em que eu comecei afundar, eu me debati. Tentei respirar, e junto com o ar, veio água.
    Aos poucos meus membros ficaram fracos, e água me cobriu. Afinal, aquele parecia ser mesmo o meu fim...
                   

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1º dia

          Abri meus olhos.  O teto escuro daquela casa sombria ainda estava ali, exatamente como quando fechei os fechei. Aquele quarto pequeno, que um dia teve paredes brancas, e pequenas rosas vermelhas desenhadas, era meu novo lar. Um dia minha mãe vivera ali. Era isso que mais me causava medo daquele lugar, e dor. Aquele lugar trazia de volta todas as lembranças boas, e as ruins de minha vida, e isso me causava muita dor, e sofrimento.
        Sempre fomos apenas eu e ela, as melhores amigas, as duas mosqueteiras, como ela gostava de dizer, e com apenas um golpe, um maldito marginal a levara de mim. Em um instante nós estávamos andando e rindo, e no outro ela estava no chão agonizando.
        Passei a mão por meu rosto, limpando as lágrimas. Aquilo já era um ritual pra mim, apenas um mês de sua ausência, e eu não sabia se poderia aguentar mais. Minha mãe era tudo pra mim, meu porto seguro, meu ombro amigo.
                    


        Depois que ela se fora, eu fui obrigada a ir para o interior, morar com meus avós. Eu chegara ali, e não havia saído daquela casa nem para ir ao quintal. Eu conversava com meus avós, eles me faziam bem, me faziam lembrar de minha mãe.
         Meus avós eram muito pacientes comigo. Mas, não respeitaram minha decisão de não querer estudar esse ano. Eles haviam me matriculado na escola local, e hoje, era o meu primeiro dia de aula.
        Após tomar banho, vesti a primeira coisa que achei. Uma blusa de renda branca, calça jeans desbotada, e meu casaco pastel. Calcei minhas botas pretas de cano curto. No reflexo do espelho meu cabelo negro estava em um cacheado perfeito, afinal, tinha acabado de lavá-lo. Passei lápis preto em volta de meu olho, o que destacava meus olhos verdes.
        Peguei minha mochila, e fui para a cozinha. Minha avó já estava lá, eu fui até ela, e beijei seu rosto.
        Vovó tinha a pele morena, exatamente como a de mamãe era, e a minha. Seus cabelos grisalhos estavam sempre presos em um coque.
        - Está linda querida!- Disse ela com um sorriso enorme.
        - Obrigada vovó.
        Comi uma maça. Vovó tentou me fazer comer um pedaço de seu bolo de chocolate, mas eu recusei.
        - Tudo bem então querida. Acho que já está na hora de você ir para a escola. Não quer mesmo que eu te acompanhe, ou que seu avô a leve de carro?                                               
        - Tenho vovó, eu sei onde fica, e a cidade é pequena, então a escola fica perto daqui. Eu consigo chegar lá sozinha. Não se preocupe.
        Eu sai de casa, fechando a porta atrás de mim. Olhei pela última vez para aquela casa amarela pequena. Era tão perfeita por fora, um jardim bem cuidado, não havia muros, como em minha casa em São Paulo, apenas uma charmosa cerca branca.                                           
        Andei devagar, sempre olhando para o chão. Era estranho estar fora daquela casa, principalmente sozinha.
        Finalmente avistei a escola. Dois pavilhões com cerca de 13 salas cada um. Fora o pátio, a secretaria, o banheiro, etc. Era uma escola bem grande, considerando o tamanho de Orlândia.
        Aparentemente eu estava atrasada, não havia ninguém nos corredores. Ao menos eu não seria a única novata na escola, afinal, primeiro dia de aula do ano. Mas com certeza seria a única novata atrasada. Procurei meu nome nas listas das salas do segundo ano. Finalmente, 2º ano D, Agatha Mendes Souza.
        Abri a porta, e todos da sala me encararam. Antes mesmo que eu abrisse a boca, um professor baixinho e gorducho, apontou com a cabeça um lugar no fim da sala. Eu abaixei a cabeça e fui para meu lugar.
        Alguém me cutucou assim que me sentei. Olhei para o lado.
        - Olá, meu nome é Rívia, prazer em conhecê-la.- A negra inexplicávelmente linda me estendeu a mão.- Como é seu nome?
        - Agatha.- Falei, boquiaberta. Ela parecia de mentira, capa de uma revista, com seu cabelo cacheado castanho, seu rosto em um formato perfeito.
        - Novata não é mesmo?
        - Infelizmente sim.
        - Bom, acho que além de você, temos mais um novato aqui, porém, ele é do primeiro ano.- Disse sorrindo.
        Ao menos, eu não era a única.
        Olhei para o lado, e todos ainda me encaravam.






      

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